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Felca|| Dia Mundial do Bullying

Eu comecei esse texto sem nem saber qual seria o título que colocaria. Não tem como expressar o que eu estou sentindo sobre tudo isso, principalmente aos ataques que ele está sofrendo depois de expor seu íntimo na internet.  No dia mundial de combate ao bullying , os comentários só reforçam o quanto a nossa sociedade está doente e reforçam a ideia de que são intolerantes e não empáticos. Não é porque a semana antecede a uma grande decisão política que tudo tem que ser se posicionar entre A e B. Que outros assuntos não podem ser abordados e discutidos. Agora que deveria ser ainda mais importante discutir, principalmente, pois é uma pauta que também isola as pessoas, como esse extremismo (de ambos os lados) isola uns dos outros.  Um cara que tem fobia social , tentou uma maneira de viver sem que enfrentasse uma sociedade que dava medo nele e com isso conquistou uma fama que daria ainda mais gatilho para o que sente. Que mostrou seus batimentos cardíacos altíssimos até que se ac...

Felca|| Dia Mundial do Bullying


Eu comecei esse texto sem nem saber qual seria o título que colocaria. Não tem como expressar o que eu estou sentindo sobre tudo isso, principalmente aos ataques que ele está sofrendo depois de expor seu íntimo na internet. 

No dia mundial de combate ao bullying, os comentários só reforçam o quanto a nossa sociedade está doente e reforçam a ideia de que são intolerantes e não empáticos. Não é porque a semana antecede a uma grande decisão política que tudo tem que ser se posicionar entre A e B. Que outros assuntos não podem ser abordados e discutidos. Agora que deveria ser ainda mais importante discutir, principalmente, pois é uma pauta que também isola as pessoas, como esse extremismo (de ambos os lados) isola uns dos outros. 

Um cara que tem fobia social, tentou uma maneira de viver sem que enfrentasse uma sociedade que dava medo nele e com isso conquistou uma fama que daria ainda mais gatilho para o que sente. Que mostrou seus batimentos cardíacos altíssimos até que se acalmasse somente quando chegou em casa. Um cara que suportou toda a infância e adolescência na escola, que deveria ter sido acolhido, mas foi isolado, feito de chacota. Vê a menina que ele era apaixonado o chamando de nojento. Quando sentiu que enfim ia ser acolhido, eram pessoas colando adesivos em sua roupa, para depois o carregar por toda a escola anunciando que estavam vendendo adesivos que estavam colados nele. Nem imagino os olhares que deram a ele e isso o marcou. 

Existe uma citação da autora Lya Luft que define isso. Que trás o conceito que na infância que é construída toda nossa percepção de si mesmo. O que seremos no futuro. 
"A infância é um chão que se pisa a vida inteira” – Lya Luft

É na infância e na adolescência que o ser é moldado. E é nessa fase que é onde a maioria dos traumas da fase adulta nascem. E uma boa convivência nas esferas sociais do jovem é de suma importância. E Felca expõe isso em seu relato pessoal. E não, ele não fez o momento ser sobre ele (como algumas certas pessoas, incluindo um certo influencer Youtuber controverso falou no seu perfil no twitter/X), mas sim sobre um assunto importante a partir da ótica de sua experiência. 

Confesso que ainda não vi o vídeo todo. Ainda não tive a força necessária para passar a conhecer o resto da história. Mas pelo Reels postado posteriormente em seu Instagram, já sei que tudo era para também revelar um projeto, nobre, que ele se propõe: ir em escolas, onde é o ambiente mais próprio para tal, fazer palestras sobre o assunto. Isso pode não ser importante para você, adulto, que tá alienado discutindo política e colocando argumentos, as vezes inverídicos, na internet. Mas é importante para salvar vidas. Vidas jovens, que ainda nem chegaram na fase adulta para bostejar na internet como vocês estão nesse momento. 

Entre os adolescentes, o aumento foi de 81%, indo de 3,5 suicídios por 100 mil adolescentes para 6,4. Nos casos em menores de 14 anos, houve um aumento de 113% na taxa de mortalidade por suicídios de 2010 a 2013, fazendo do suicídio a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. – Portal CFM 

Isso são dados de 2013. E já era preocupante. Imagina agora que, além do ambiente físico, o jovem ainda tem que se preocupar em sofrer o bullying em casa, o cyberbullying. Ou seja, nem onde ele poderia encontrar um abrigo da violência vivida na escola, ele vai encontrar, pois pode entrar em seu perfil e vê coisas horríveis. Eu sei disso porque eu já fui vítima no ensino médio. E é horrível. 

"Ah, mas eu sofri bullying e estou aqui bem, isso não me afetou". Será mesmo que não lhe afetou de nenhuma forma? E mesmo que não tenha deixado nenhum prejuízo em seu modo de viver, sua experiência é individual e você não pode diminuir a dor do outro pela sua. Cada um sente de um jeito e temos que validar, respeitar e ter empatia. Algo que o Felca não está colhendo neste momento, pois se abrir seu vídeo no YouTube, a maioria dos comentários serão xingando o mesmo (e alguns ainda mais violentos). O que prova que ainda é mais necessário falar de toda essa violência a saúde mental. 

"Ah, o timing foi errado". Não. Não foi. Foi postado no dia mundial de combate do bullying. E não precisa ser transformado em opinião política. Uma parcela do público criou uma expectativa errada perante o anúncio da volta do Felca. Ele nunca deixou a entender que seria um pronunciamento político. Ele nunca se colocou como salvador do país. Vocês colocaram essa ideia vocês mesmos. Ele mal está tentando se salvar.  (E se você quer votar porque seu famoso favorito disse que vai votar em A ou B, sinto dizer que você também tá mais alienado que outras pessoas, procure você estudar e formar sua opinião também). 

Os vídeos anteriores de adultização quebrou a bolha do público que o Felca alcançava. E não era porque ele era o herói do cavalo branco. Ali ele também foi falar de saúde mental dos adolescentes. De quanto aquilo era negativo. E muitos perceberam isso. E furou a bolha que ele mesmo diz que deu medo nele. MEDO. E em alguém que não tem fobia social já daria medo essa cobrança, esses holofotes em cima de tudo que você falará dali adiante, imagina para quem tem esse medo. 

Para um cara que precisava tomar vodka para ter que sair de casa, ele está tentando tirar outras pessoas dessa situação, para não chegar onde ele chegou. Ele quer vencer o medo dele para fazer algo bom para tantos outros jovens terem uma chance de vencerem e lidarem melhor do que ele lidou nessa situação. 

Ele não tem obrigação de se posicionar essa semana. Na verdade, ninguém tem. É sempre bom se posicionar, pois sua voz pode chegar e elucidar alguém (ou alienar, dependendo do que vão falar), mas se a pessoa não quiser, ela não é obrigada e você também não pode obrigar. Vivemos, ainda, em uma democracia que garante a liberdade de expressão a cada cidadão. E não falar, também é uma liberdade de expressão. 


Quem espera que, na pressão popular, ele faça um pedido de desculpas e conte sobre sua posição política, acredito que tenha que sentar. Pois, pelo tanto que Felca já mostrou de sua pessoa, ele não fará isso. Ele chegou a um nível que não ligaria em nenhuma opinião ou pressão que faria para ele falar. E para quem sofre de algum tipo de problema social (ansiedade, isolamento, medo é a própria fobia citada), isso é o que faz sentido. Ele não vai chamar atenção para si. 

As pessoas só lembram de falar de saúde mental no Setembro Amarelo. As vezes no Janeiro Branco. E o vídeo do Felca prova isso. Prova que a sociedade está doente, que a sociedade não tem empatia. Em seu vídeo sobre combate a violência que causa danos e traumas para uma vida inteira, os comentários revelam o pior de cada ser humano ali digitando. A ironia de mostrar os comentários que são o gatilho para essa fobia.  

Não falo que Felca é santo. Não considerem ele o salvador do país. Ele não é. Assim como todos, ele já fez besteira e muita. Mas, ele vem com algo maior para tentar ajudar outras pessoas. E seu vídeo prova que, falar sobre o bullying que ele sofreu, mostra que as pessoas não estão nem aí para respeitar e amar o próximo, afirmando suas falas. 

E aos que alimentaram esperanças de posicionamento político, saiba que, mesmo que indiretamente, podemos ver um posicionamento do Felca ali. Ao falar da violência sofrida do bullying, a mostrar a intolerância dos outros, da doença do povo brasileiro escancarado nesse mês de política acirrada, ele mostra que só chegamos nesse ponto da sociedade, pois faltou o respeito, a empatia e o pensar no próximo. Adoecemos anos atrás e só formos piorando mentalmente. E ao pedir empatia e que se respeite o próximo, falamos muito mais de política em um vídeo sobre bullying do que em todos os outros agressivos tentando provar um argumento para cada um dos lados. 

Você só queria que ele massageasse o seu político de estimação, mas encontrou uma lição de saúde mental. Encontrou uma lição mais importante que isso. Pena que não alcançou a maioria. 

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