Dia 19, nosso professor Jacques Alastair organizou um Sarau da Psicologia que juntou as 2 turmas do curso. Apresentamos, de forma criativa, temáticas da cultura com o viés da psicologia. Meu grupo aderiu a ideia de trazer um jogral sobre o livro O Médico e o Monstro, falando da dualidade humana entre Jakyll e Hyde, preto no branco, o bem e o mal, luz e sombra. Os desejos reprimidos do Dr. Jekyll dá origem ao cruel e impiedoso Hyde, uma transformação grotesca e personificação do mal mais pecaminoso da humanidade. Entre indas e vindas de transformações, o Jekyll se vê em uma situação onde não mais controla seu outro eu voluntariamente, deixando a transformação dominar-se em uma catarse prazerosa. Mas precisamos entender que o ser humano não é de extremos, mas um ser mais complexo que duas faces do mesmo eu. Vestimos personas, máscaras para viver em sociedade, sublimando nossos desejos e energia para ser aceitos na moral dessa comunidade. Mas até onde isso é saudável?
Primeiro de tudo, quero recomendar. Achei divertido, não ficou algo bobo nem infantilizado (que é sempre algo que criticamos se acontecem adaptações, principalmente as atuais).
O filme começa com o casamento de Morticia com Gomes Addams. A família Addams está sempre procurando novos lugares para morar, pois sempre entram em conflito com "humanos normais". Enfim, eles acham um antigo manicômio amaldiçoado que podem chamar de lar. O filme, então, tem um pulo de 13 anos, vindo para os tempos atuais, onde Feioso e Wandinha já nasceram e estão crescidos.
O enredo gira em torno do condomínio residencial Assimilação - dito para ser a vizinhança perfeita. Quando o pântano em volta da mansão Addams é drenado, a mansão é revelada para seus novos vizinhos da Assimilação, o que incomoda demais a antagonista do filme.
Particularmente adorei o nome assimilação, uma pista indireta para o que a antagonista quer realizar: um bairro onde tudo é igual, todos os cidadães tem seu papel e seguem todas as regras estabelecidas para todos serem praticamente um só pela comunidade (isso me lembrou um episódio de Rick e Morty da 2ª temporada que há um alienígena chamado assimilação onde transforma o planeta em um ecossistema perfeitamente equilibrado, sem defeitos).
Assimilar tem o significado de absorver e incorporar (uso, costume, técnica, cultura, modo de agir etc); ser absorvido e incorporado. E é isso que parece que vemos no condomínio Assimilação: todos sendo absorvidos e seguindo uma única ordem, um único caminho que está correto, todos agindo igual e obedecendo a antagonista.
E é por isso que a esquisitice dos Addams incomoda tanto: pois a individualidade de cada um causa estranheza.
Em pleno 2019 um filme como esse pode trabalhar a individualidade de uma pessoa e como isso pode incomodar a sociedade que o envolta. Isso pode parecer exagero, mas é o que vemos todo dia com o que acontece com minorias (seja comunidades negras, LGBT, ou algo ainda mais básico, como alguém de gostos e hábitos um pouco diferente do que o convencional). O ato dessa pessoa por si só já pode ser considerado um ato de protesto. E isso acontece com qualquer minoria em qualquer parte do mundo.
Um filme que aborde essa temática de forma sutil e leve, até mesmo cômica merece ser assisto. Sei que o que eu penso e analiso sobre o filme pode não agradar fãs mais ávidos dessa franquia e pode nem ser o que pensaram de proposta ao filme, mas acho fantástico assistir algo e ter tantas entrelinhas para se trabalhar além do roteiro.

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